O dia 20 de novembro ocupa um lugar central na luta antirracista no Brasil. Ainda assim, pensar o Novembro Negro apenas como uma data comemorativa ou simbólica esvazia sua potência política, histórica e ética. Este é um convite para ampliar o olhar e compreender que essa luta não se encerra em um dia específico, mas atravessa práticas, saberes e posicionamentos cotidianos.

Pensar o Novembro Negro é reconhecer que a construção de uma sociedade mais justa exige continuidade, responsabilidade e compromisso real.

A Psicologia e seu compromisso histórico

A Psicologia, enquanto campo de saber e prática profissional, não esteve isenta das estruturas racistas que organizaram a sociedade. Pelo contrário, em diversos momentos históricos, contribuiu para a manutenção de desigualdades ao naturalizar hierarquias, patologizar corpos negros e legitimar exclusões.

Reconhecer esse passado não é um exercício de culpa, mas de responsabilidade. Reforçar o compromisso da Psicologia com uma prática e epistemologia cada vez mais negras significa questionar teorias que se colocam como universais, mas que ignoram experiências racializadas, e valorizar produções comprometidas com a luta antirracista.

Uma Psicologia eticamente comprometida precisa estar em constante revisão de seus fundamentos, práticas e referências.

Consciência para quem?

Falar sobre consciência racial exige cuidado e honestidade. É fundamental refletir sobre quem buscamos conscientizar e, sobretudo, quem se recusa a se conscientizar. Muitas vezes, o discurso da conscientização recai novamente sobre pessoas negras, como se a responsabilidade pela transformação social fosse delas.

A luta antirracista não se sustenta apenas na produção de consciência, mas na disposição real de escutar, rever privilégios e abrir mão de lugares de poder. Consciência sem responsabilização se torna vazia.

Memória, ancestralidade e futuro

Não se trata apenas de consciência individual. Trata-se de memória coletiva. Valorizar aqueles que vieram antes, suas histórias, resistências e saberes, é fundamental para compreender o presente e projetar o futuro.

A ancestralidade não é apenas passado. Ela é base, continuidade e direção. Honrar a memória de quem construiu caminhos em contextos de violência e apagamento é também reconhecer o trabalho daqueles que, no presente, seguem construindo possibilidades de existência digna.

O resgate do passado ancestral é semente. Uma semente que, quando cuidada, produz um futuro negro possível, vivo e comprometido com a dignidade.

Para além do dia 20

Novembro Negro nos convoca a ir além de discursos pontuais e ações simbólicas. Ele exige posicionamento ético, político e profissional contínuo. Exige práticas que reconheçam desigualdades estruturais e que se comprometam com transformações reais.

Pensar o Novembro Negro é pensar sobre como escutamos, como atuamos e quais saberes escolhemos sustentar. É compreender que o futuro se constrói a partir da memória e que não há justiça social sem enfrentamento do racismo.

Que este mês não seja um ponto final, mas um ponto de partida.