Falar sobre Setembro Amarelo exige mais do que repetir slogans ou concentrar discussões em um único mês do ano. Para que a campanha cumpra seu papel, é necessário refletir sobre os objetivos que sustentam sua criação e manutenção e questionar se, ao longo do tempo, ela segue alinhada a uma compreensão política, social e interseccional da saúde mental.

Esse movimento não é um convite ao esvaziamento da campanha, mas à sua qualificação.

Quando o nome vira uma cortina de fumaça

Em muitos contextos, o termo “Setembro Amarelo” passou a ser utilizado como uma forma de suavizar ou evitar palavras como “suicídio” e “prevenção ao suicídio”. Essa substituição, embora bem-intencionada em alguns casos, pode produzir um efeito problemático: transformar um tema urgente em algo distante, abstrato ou tabu.

Se não conseguimos nomear o fenômeno, como podemos escutar as vivências relacionadas a ele? Como acolher o sofrimento se o assunto é considerado pesado demais para ser enfrentado diretamente?

O silêncio, nesse caso, não protege. Ele afasta.

Saúde mental não se constrói no vazio

Pensar saúde mental de forma responsável exige reconhecer que ela não é resultado apenas de fatores individuais. Ter uma vida digna envolve condições materiais e sociais concretas, como:

  • Acesso à alimentação adequada

  • Emprego e renda justa

  • Saúde pública de qualidade

  • Educação e lazer

  • Políticas públicas efetivas

  • Redes de apoio

  • Ambientes livres de violências

Ignorar esses fatores é reduzir o debate e deslocar responsabilidades que são coletivas para o indivíduo.

Responsabilização também é cuidado

Falar em prevenção envolve pensar responsabilização institucional e social. Um exemplo claro é quando uma escola assume o compromisso de agir diante de situações de racismo ou LGBTfobia vividas por estudantes. Esse tipo de posicionamento não é acessório, é fundamental.

Pesquisas apontam que o sofrimento psíquico e o risco de morte estão atravessados por marcadores sociais como raça, gênero, orientação sexual e classe social. Esses dados evidenciam que não se trata apenas de sofrimento individual, mas de estruturas que produzem exclusão, violência e adoecimento.

O social e o político não podem ser ignorados

A compreensão de que determinados grupos sociais vivem níveis mais elevados de vulnerabilidade nos obriga a repensar a forma como falamos de prevenção. Em muitos casos, o sofrimento extremo é produzido por contextos contínuos de violação de direitos, desumanização e ausência de proteção social.

Isso nos convoca a ampliar o debate e reconhecer que não há prevenção possível sem enfrentamento das desigualdades estruturais.

De janeiro a janeiro

Resgatar o verdadeiro significado do Setembro Amarelo passa por compreender que falar sobre a temática apenas em setembro não é suficiente. A discussão precisa acontecer durante todo o ano, de forma ética, capacitada e responsável, sempre conectada à defesa de direitos básicos e humanos.

Somente assim será possível recusar a mercantilização da vida, evitar abordagens superficiais e construir práticas realmente comprometidas com o cuidado, a escuta e a transformação social.

Setembro Amarelo não deve ser um ponto isolado no calendário, mas um lembrete de um compromisso que precisa ser permanente.